Normalmente você posta muito sobre livros gringos, tem algum motivo? Tipo, você acha que falta algo nos livros nacionais?
então, vamos lá: primeiro, eu preciso que vc entenda que estou interessada numa abordagem acadêmica antes que qualquer coisa, visto que sigo por uma linha mais reconstrucionista. eu acho que existe uma pretensão horrível no mundinho esotérico, uma arrogância, uma soberba enorme quanto a conhecimento acadêmico, especialmente quando esse conhecimento acadêmico vem de fora. e em parte, eu acho compreensível, eu entendo que isso vem de inúmeros fatores e eu não posso agir como se a própria academia não houvesse, ao longo de sua looonga história, fomentado discursos e atitudes extremamente danosas aos conhecimento tidos como êmicos. mas é isso: existe uma longa história de pessoas que se debruçaram sobre essas áreas que até hoje são consideradas tabu, principalmente no brasil. e as histórias dessas áreas de estudo NÃO começaram no brasil. no brasil falta expertise e quando eu falo isso não falo em QUALIDADE — até porquê temos estudiosos, acadêmicos incríveis —, falo em quantidade mesmo. em quantas universidades brasileiras vc encontra o curso de lic. em ciências da religião? na maioria do que você vai encontrar pertinente a área, se der sorte, são programas de pós-graduação. religião, misticismo, estoerismo são tabu no mundo inteiro mas existe mais abertura lá fora e, devido a maneira como o sistema de ensino superior opera lá em boa parte dos países lá fora, existe uma fragmentação muito interessante. se alguém quiser se tornar especialista de folclore aqui no brasil, quais são os passos? dá pra entender o meu ponto? as aulas de ensino religioso no brasil, no ensino público, nem são obrigatórias. se os pais não quiserem que o adolescente assista a aula, a escola vai ter que dar um jeito de arrumar outra atividade. isso acontece na realidade? sabemos que não, mas em ambos os casos escancara o quão difícil é transitar essas questões no nosso território. o que eu tenho a oferecer em pt-br, em maioria, são indicações de artigos acadêmicos. e na minha experiência, as pessoas não estão interessadas nisso, isso quando conseguem entender a linguagem acadêmica. os livros que eu sugiro em língua inglesa são mais acessíveis, geralmente são livros focados em introduzir o tema ou torná-lo mais compreensível a quem não tem a bagagem acadêmica. mas se tem uma coisa que eu sei é que não há como fugir do inglês, alemão e francês se você quiser estudar sério sobre misticismo. não vou discutir aqui sobre como a maioria dos livros traduzidos pro pt-br são confessionais e/ou pesquisas desatualizadas ou meia boca msm. se esses livros chegam aqui é porque a demanda é pra eles. eu estou muito mais do que acostumada às livrarias nunca terem os livros que quero e preciso, não existe demanda pra eles. isso vem, também, da herança de tradições orais, além de outras questões. o brasil é muuuuito mais fechado pra discussões acerca do divino, especialmente se esse divino (ou ausência dele) desvia de uma ótica cristã. até mesmo dentro das ciências humanas, o estudo do religioso, do místico e afins não é levado tão a sério. qual é a finalidade de se aprender sobre isso quando a sociedade brasileira é tão fechada e não discute fé? isso porque fé é algo muito presente na vida do brasileiro, mesmo que não seja a sua, mesmo que vc se considere ateu. e aí o que a gente acaba vendo são esses embates super inflamados onde ninguém entende de nada, nem os ateus, nem os crentes (seja lá no que acreditem). anyway meio que divaguei sobre, não sei se faz sentido o que falei até agora mas em resumo: eu quero olhar pro horizonte e não pro meu próprio umbigo. eu também sou muito fã de se estudar as coisas a partir do princípio: quero chegar o mais próximo possível de quando as coisas começaram. há quantos anos o brasil, enquanto país, existe? e sem querer desmerecer a história dos estudos sobre religião em território nacional (até porque sou muito interessada nisso)... mas fica o questionamento.
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